Olhos Cansados





Meus olhos cansados marejam.
O calor transpira na cidade.
E enquanto arrumo a casa,
Meu espirito se abana sentado na cadeira.
Cansado da peleja.

Tudo parece sem cor em Satiro.
Não sem cor.
Mas em um tom amarelado.
Morrendo quase em preto e branco.

Abro as portas e as janelas,
Quem sabe há alguma brisa vadia perdida
Que queira entrar...
Mas sopra com força
O calor do forno que cozinha o juízo lá fora.

Desisto  da luta e sento ao lado do meu espirito.
Tão amarelado e sem graça quanto a cidade.
Paciência.
Olho o céu limpo e sem nuvens.
Meus olhos cansados e vermelhos.
Procuram ainda por alguma cor de esperança.

Helton Ojuara.

Mudança: A engrenagem do Mundo




Mudei.
Porque nesse "novo mundo"
As mudanças são necessárias.

O Sentimento é uma entidade que  enfraquece o espirito humano.
Sentir e escrever
já se enquadra em  um ato  masoquista de auto-flagelação.

Melhor sentir como sente uma pedra,
Destas que piso em Sátiro..
Sem dor, sem remorso,  sem raiva ... apenas o simples ato do contato.
Nada mais.

Agora é preciso trabalhar o outro lado do cérebro.
Criar dinheiro,
Torna-se melhor,
Ascender cada vez mais a piramide que nos empurra para baixo.

Como a luz da aurora que  nos acorda  levemente,
Volto a enxergar o Concreto das coisas...
E a cada dia o "velho eu" morre em mim  novamente.
Sucumbe às suas próprias  memorias, ideias e fantasias distorcidas...
Memórias psicodélicas diante desse mundo tão real e Concreto.

É vital  ver as coisas como elas  são.
...
O farfalhar caótico das árvores,
O olhar  sem vida  do proletariado,
As ideias vazias  regadas a sexo e álcool da maioria das pessoas.
Entenda,
Não defendo estar entre as minorias.
Mas  de se tirar proveito de um olhar mais clínico por assim dizer,
Diagnosticar algo de importante...
É dar valor,
Materializar  o que antes era apenas imaginável.
Se é o dinheiro que move o mundo...
Então melhor torna-se parte deste sistema de engrenagem.

Se não existe espaço neste mundo para o "Velho Eu",
Então que ele retorne a catacumba  da qual outrora  escapara,
E de onde deveras   desejo que não mais saia.

Mudemos...
Porque o mundo é cheio de possibilidades,
E ele nos espera.

Helton Ojuara.






Meu espírito perturbado.






Tudo muito tranquilo.

O vento sopra devagar.

Já faz duas horas que espero que se passe  trinta minutos.
Mas o ponteiro teima comigo.

Vendas, farmácias, lojas...
Nada funciona entre o almoço e duas horas.
No interior até as formigas trabalham devagar.

Passeio pela praça.
Algumas árvores, uma criança que brinca de gude
Uma igreja fechada.
O sol que reflete no paralelepípedo.
Sempre quente.
Sempre seco,
As vezes penso como vivem as pessoas  em lugares assim.
Se adaptam ao clima?
Ao ritmo mais lento do relógio?
Não pertenço a nada aqui.
Na verdade não pertenço a lugar algum.
Estou mais  perdidos do que  qualquer um deles.

Meu espirito perturbado.
Sem paz.
Me derrubou esta  semana.
Uma tristeza profunda me abateu como as gotas de uma  chuva
Que só aconteceram na imaginação.
Lembrei:
Deixei a felicidade em algum lugar.
Minha memória ruim.
Não me deixa saber onde.

Paro.
Olho as ruas quase desertas de Sátiro.
Não sei porque meu coração se sente assim como essa cidade.
Árido- seco.

Abandonei meu poço sem fundo,
Agora estou atolado até o pescoço,
Nessa lama pegajosa da solidão.

Helton Ojuara












A felicidade também não cai do céu





Aluguei uma casa,
Que ao longe  se ver uma montanha alta e cinza,
Há muito tempo não chove,
Paciência...
A felicidade também  não cai do céu,
Nem para mim,
Nem para as gramas,
Estamos todos na mesma secura.

Fecho a grade da varanda,
E Entro no carro.
Mãos no volante,
Vejo no retrovisor o reflexo de olhos cansados.
E tudo parece tão silencioso,
Um calor absurdo,
As casas todas fechadas.
Todos fugindo deste calor...
Ou se escondendo de si mesmos?

Ligo o ar condicionado,
Único amigo leal deste fim de mundo.
Estou com uma tendência de achar tudo triste,
Olhos depressivos de um coração doente.
Os olhos de quem ver
São as ideias de quem ver...
Uma tristeza tão aguda
Tão sutil...
Que não sei se é a seca ou calor desta cidade...
Mas já há algum tempo
Nada mais tem graça.
Ligo o carro e saio para trabalhar.

Helton Ojuara

Cidade seca e árida




Terra seca e árida.
Queria ter algo aqui.
Trinta quilômetros de asfalto após o entrocamento.
Esse verbo -  como já disse em outra época-  é um verbo maldito.
Um calor quase insuportável.
Porque o Querer nunca acaba.
E eu continuo querendo cada vez mais.
Vários povoados no caminho.
Animais na pista e o ar condicionado do carro sofrendo.
Falta sempre algo,
Meu poço sem fundo tão longe.
Após uma baixada desponta uma cidade.
Marrom como a seca,
Vermelha como minha esperança.
Opa, bom dia... aqui é sátiro dias? - sim senhor.
Amigo a esperança não é verde?
...
Meu querer é tão grande,
Meu poço sem fundo tão longe,
Que   o verde da esperança mirrou com a  seca.
Sobrou só o vermelho dessa cidade.

Helton Ojuara

Retrato



Paisagem desértica,
Cacto que brota sozinho na areia,
Montanha distante,
Pedra fria   na beira do rio,
O silêncio da madrugada,
Orvalho que  desaparece na grama,
Palavra nem dita nem escrita,
Homem presente com o  espirito distante,
Como um  corpo estranho que vaga no espaço,
Rumo a um mar escuro e  vazio.
Escolha qualquer uma....
Será sempre eu.

Helton Ojuara.

Madrugada.



Hoje acordei bem cedo,
Fui para a varanda da casa.
Nem um pássaro cantando,
Nem se quer um cachorro  a farejar o lixo.
Nada.
Hummm...
Talvez houvesse um silêncio...
Um silêncio absurdo  que dormia na praça.
E uma insônia  raivosa
Que rosnava ....
Vociferava,
E não me deixava dormi na cama.

Paciência...

Bebi uma pouco de água.
Queria estudar...
Tenho muito o que estudar...
Mas uma Falta constante me consumia por dentro.
Aquele velho buraco negro de sempre.

Onde foi parar o meu sonho?
Que dormia comigo todas as noites?
Que me fazia feliz
Em um mundo que  somente existia em minha cabeça.
= suspiro=
Tanto tempo sem ele  que  não consigo nem mais dormi.

Voltei a escrever hoje.
As mesmas palavras cansadas  de sempre.

Helton Ojuara.


No meio da chuva

 
Um som que estremece,
Um raio que corta,
O fogo nasce,
O vento que sopra a árvore,
E lagarta que  se enrola no casulo.

O céu cheio de nuvens,
Lembranças de saudades,
Um carro Branco que passa,
O asfalto úmido e quente,
Gotas da chuva espremidas no para-brisas,
Que lembranças que tenho de mim agora?
Que lembranças terei no futuro?

Olho no retrovisor,
Meus olhos vivos,
Castanhos vivos,
Já cansados de tantas coisas...

Queria dormi agora.
Profundo.
Para sempre?
Não.
Somente agora.
Enquanto  a chuva tenta apagar o fogo,
Que teima em queimar
Permanecer vivo.

Helton Ojuara

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...